História espírita — O quarto que ninguém podia abrir

Gilson tinha 72 anos e possuía um quarto que praticamente ninguém podia visitar.

Ali estavam relógios quebrados, revistas de quarenta anos atrás, rádios antigos, ferramentas, caixas vazias, roupas que não serviam mais e até brinquedos dos filhos, que já tinham mais de cinquenta anos.

A esposa dizia:

— Gilson, por que não doamos algumas coisas?

Ele respondia:

— Um dia podemos precisar.

Mas o “um dia” nunca chegava.

Quando a esposa desencarnou, Gilson começou a guardar ainda mais coisas. Agora, cada objeto parecia representar uma lembrança.

Um velho casaco era a esposa. Uma bicicleta quebrada era a infância do filho. Uma xícara trincada era a mãe. Uma fotografia dentro de uma caixa era a juventude.

Certa noite, Gilson sonhou que estava entrando em uma casa enorme no mundo espiritual.

Havia corredores iluminados, jardins e pessoas sorrindo. Mas ele caminhava carregando dezenas de malas.

Um homem aproximou-se e perguntou:

— Meu amigo, para onde o senhor está levando tudo isso?

Gilson respondeu:

— São minhas coisas.

O homem sorriu:

— Abra uma das malas.

Gilson abriu. Estava vazia. Abriu outra. Vazia. Todas estavam vazias.

Surpreso, perguntou:

— Onde estão as minhas coisas?

O benfeitor respondeu:

— Ficaram na Terra.

Gilson então perguntou:

— E por que continuo carregando as malas?

O Espírito respondeu:

Porque as coisas ficaram na Terra, mas o apego veio com você.

Gilson despertou assustado.

Naquela manhã abriu o quarto.

Pegou três caixas e escreveu: DOAR.

Depois mais duas. E mais outras.

Dias depois, olhando o quarto quase vazio, percebeu algo curioso: não sentia que estava perdendo alguma coisa.

Sentia-se mais leve. Então compreendeu:

não estava esvaziando a casa.
Estava libertando o coração.

A recomendação de Jesus para nossa vida

Jesus não propôs miséria nem condenou quem possui patrimônio. Seu ensinamento aponta para uma mudança de prioridade:

“Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
— Mateus 6:21

Talvez essa seja a grande pergunta para o acumulador — e, de certa maneira, para todos nós:

Onde está meu tesouro?

Naquilo que guardo?

Naquilo que possuo?

Naquilo que os outros admiram em mim?

Ou naquilo que estou me tornando?

Uma prática simples pode ser adotada: a cada mês, selecionar algumas coisas que não utilizamos e colocá-las novamente em circulação — doando, vendendo, reciclando ou destinando corretamente. Paralelamente, podemos fazer a mesma limpeza dentro de nós: um ressentimento para abandonar, uma culpa para compreender, um relacionamento para reconciliar, um hábito para modificar.

Porque existe um tipo de riqueza que nunca precisaremos abandonar.

É aquilo que conseguimos transformar em amor.