Na visão espírita, possuir bens não é problema; tornar-se possuído por eles, sim. A Doutrina Espírita não condena o dinheiro, o patrimônio, a prosperidade nem o conforto obtido honestamente.
O ponto central é a relação moral que estabelecemos com aquilo que possuímos.
Kardec apresenta a riqueza como instrumento de prova e também como poderoso meio de ação.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, o ser humano aparece muito mais como administrador temporário dos recursos materiais do que como proprietário definitivo deles.
Tópicos espíritas sobre os acúmulos materiais
1. Possuir não significa apegar-se
É possível ter casa, propriedades, empresa, investimentos e patrimônio sem viver escravizado por eles. O problema começa quando a segurança emocional passa a depender exclusivamente do “ter”.
2. A riqueza não é condenada pelo Espiritismo
O dinheiro é um recurso neutro. Pode financiar egoísmo e ostentação ou educação, empregos, saúde, pesquisa, assistência e desenvolvimento. Kardec mostra que a riqueza pode funcionar como poderoso instrumento de progresso.
3. Existe diferença entre poupar e acumular
Guardar recursos para aposentadoria, emergências, filhos, investimentos e segurança familiar pode representar prudência. Acumular compulsivamente, porém, mesmo quando já existe abundância, pode revelar medo, avareza ou necessidade excessiva de controle.
Portanto, planejamento financeiro não é falta de espiritualidade.
4. O apego nasce dentro da pessoa
Uma pessoa pode possuir milhões e ser desprendida. Outra pode possuir muito pouco e viver profundamente apegada ao que tem. O apego é essencialmente um estado psicológico e espiritual.
5. O patrimônio permanece; o Espírito prossegue
Para a visão espírita, a morte estabelece uma espécie de auditoria inevitável da existência: propriedades, dinheiro e objetos permanecem aqui. Inteligência, conhecimento e qualidades morais acompanham o Espírito. Essa é justamente a ideia apresentada no capítulo XVI de O Evangelho segundo o Espiritismo.
6. A riqueza também é uma prova
Em O Livro dos Espíritos, questões 814 e 815, riqueza e miséria são apresentadas como experiências diferentes; ambas oferecem dificuldades próprias. A riqueza, particularmente, amplia possibilidades e tentações.
Quanto maior o recurso, maior pode ser a responsabilidade.
7. Não é necessário distribuir tudo o que se possui
O Espiritismo não propõe irresponsabilidade financeira. O próprio texto de O Evangelho segundo o Espiritismo afirma que esbanjar patrimônio não significa desprendimento.
Administrar bem é também uma responsabilidade moral.
8. O supérfluo merece reflexão
Aquilo que é necessidade para uma pessoa pode não ser para outra. O princípio não exige uma vida de pobreza artificial, mas convida a perguntar:
“Quanto disso realmente melhora minha vida e quanto serve apenas para alimentar aparência, competição ou vaidade?”
9. A riqueza pode multiplicar o bem
Um empresário que gera empregos dignos, remunera justamente, paga seus compromissos, investe, desenvolve pessoas e ainda auxilia a sociedade pode transformar patrimônio em instrumento espiritual.
A questão deixa de ser apenas: “Quanto possuo?”
e passa a ser: “O que estou realizando com aquilo que possuo?”
10. O maior patrimônio é interior
No final da experiência física, títulos desaparecem, contas bancárias mudam de titular e imóveis passam para outras mãos.
Permanecem conosco as consequências do que fizemos.
A grande contabilidade espiritual, portanto, não registra apenas aquilo que acumulamos, mas principalmente aquilo que realizamos.
Livros espíritas para aprofundar o assunto
1. O Evangelho segundo o Espiritismo — Allan Kardec
Recomendo especialmente o capítulo XVI — “Não se pode servir a Deus e a Mamon”. Nele aparecem temas como desigualdade das riquezas, verdadeira propriedade, emprego da riqueza e desprendimento dos bens terrenos.
É provavelmente a obra mais direta para estudar este tema.
2. O Livro dos Espíritos — Allan Kardec
Vale estudar principalmente:
questões 711 a 714 — gozo dos bens terrenos;
questões 808 a 813 — desigualdade das riquezas;
questões 814 a 816 — provas da riqueza e da miséria.
Mostra que a vida material tem utilidade, mas deve ser dirigida pela razão e pela moral.
3. O Problema do Ser, do Destino e da Dor — Léon Denis
Denis apresenta uma reflexão filosófica profunda sobre quais valores realmente permanecem com o Espírito. Ele contrapõe os prazeres exclusivamente materiais às conquistas da inteligência, da virtude e da consciência.
4. Dinheiro — Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier
Obra especificamente dedicada ao significado e ao uso do dinheiro. Emmanuel mostra que os recursos financeiros podem transformar-se em instrumentos de socorro, educação e realização do bem.
5. O Essencial — Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier
Livro de reflexões breves sobre situações cotidianas, incluindo dinheiro, riqueza e trabalho, procurando conduzir o leitor do valor exterior para aquilo que realmente possui significado espiritual.
Curiosidades espíritas sobre o tema
1. Para o Espiritismo, riqueza e pobreza podem ser provas. Não existe uma regra segundo a qual pobreza signifique evolução e riqueza signifique inferioridade.
2. Desperdiçar dinheiro não é desapego. Kardec diferencia claramente generosidade de irresponsabilidade e prodigalidade.
3. A “verdadeira propriedade” seria aquilo que podemos levar conosco após a morte: inteligência, conhecimento e qualidades morais.
4. A riqueza é considerada um poderoso meio de ação. Com recursos, uma pessoa pode alcançar muito mais gente para o bem — ou causar danos maiores.
5. Portanto, o ideal espírita não é necessariamente “ter menos”, mas estar menos escravizado ao que se tem.
Essa diferença é enorme.
Pensamentos espíritas sobre riqueza e desapego
Allan Kardec:
“A riqueza é um meio de o experimentar moralmente.”
Uma frase curta, mas profunda: patrimônio também é responsabilidade.
Chico Xavier:
“Devemos compreender os que desfrutam a riqueza material como administradores dos bens de Deus.”
Aqui aparece um conceito quase empresarial da espiritualidade: administrar, e não simplesmente possuir.
Divaldo Franco:
“Se cada qual cumprir com seu dever [...] irá atingindo seu patamar de harmonia íntima.”
Divaldo chama a atenção para algo importante: nem igualdade econômica, isoladamente, é capaz de produzir felicidade se o indivíduo permanecer interiormente insatisfeito.
Léon Denis:
“Os bens materiais nos tornam escravos; agrilhoam o homem à Terra.”
Denis não combate o recurso material, mas a escravidão psicológica diante dele.
História baseada no tema — O cofre de Augusto
Augusto era um homem muito rico.
Começara praticamente do zero. Trabalhara durante quarenta anos e transformara uma pequena loja em várias empresas.
Tinha imóveis, fazendas, aplicações e dinheiro suficiente para que filhos e netos jamais precisassem trabalhar.
Mas Augusto possuía um medo. Perder tudo.
Conferia diariamente suas contas. Economizava exageradamente. Desconfiava dos empregados.
E quando alguém lhe pedia ajuda, pensava:
— Se começar a dar, daqui a pouco todos estarão pedindo.
A fortuna aumentava.
E sua tranquilidade diminuía.
Certa noite, Augusto sonhou que havia desencarnado.
Encontrou-se diante de uma enorme mesa.
Um benfeitor perguntou:
— Augusto, o que você trouxe?
Orgulhoso, respondeu:
— Construí empresas. Tenho muitos imóveis. Deixei uma fortuna enorme.
O benfeitor sorriu:
— Perguntei o que você trouxe, não o que deixou.
Augusto ficou em silêncio.
— As propriedades ficaram na Terra. O dinheiro também. As empresas continuam funcionando. Quero saber o que você trouxe em sua alma.
Augusto tentou procurar alguma coisa dentro de si.
Recordou-se das oportunidades de ajudar que recusara.
Dos funcionários que poderia ter estimulado.
Dos familiares aos quais negara presença porque precisava trabalhar mais.
Dos milhares de objetos guardados que jamais utilizara.
Então perguntou:
— Quer dizer que trabalhei a vida inteira inutilmente?
O benfeitor respondeu:
— Não. O trabalho foi valioso. Você desenvolveu inteligência, disciplina e capacidade. O erro não estava em construir riqueza.
Augusto respirou aliviado.
Mas ouviu:
— O problema foi acreditar que a riqueza era o destino da viagem, quando ela era apenas uma ferramenta.
Augusto acordou assustado.
E percebeu que ainda estava vivo.
Nos meses seguintes, não abandonou suas empresas.
Não distribuiu irresponsavelmente seu patrimônio.
Não deixou de investir.
Fez algo muito mais inteligente.
Criou bolsas de estudo para filhos de funcionários, melhorou condições de trabalho, ajudou instituições sérias e começou a preparar sucessores para administrar suas empresas com responsabilidade.
Curiosamente, continuou rico.
Mas alguma coisa havia mudado.
Agora ele possuía o dinheiro; o dinheiro já não o possuía.
A moral de Jesus aplicada à vida
Jesus não ensinou que o dinheiro fosse mau. Alertou para a possibilidade de transformarmos aquilo que deveria ser meio em senhor.
É nesse contexto que aparece a advertência:
“Não podeis servir a Deus e a Mamon.”
Uma boa regra prática seria:
Trabalhe como se fosse viver muitos anos.
Administre como se tivesse que prestar contas.
Desfrute sem culpa.
Poupe com prudência.
Compartilhe com sabedoria.
E nunca permita que aquilo que está em sua conta bancária determine aquilo que existe em seu coração.
Talvez possamos resumir toda essa reflexão numa única ideia:
Na visão espírita, não precisamos necessariamente abandonar os bens; precisamos impedir que os bens ocupem o lugar de Deus, da consciência e do próximo.
Porque, no fim das contas, a maior riqueza não é aquilo que conseguimos guardar para nós, mas aquilo que nossa passagem pela Terra conseguiu transformar em bens.