Site gratuito sem propagandas
Texto do livro Céu e Inferno, cap. VII, 1° parte, Allan Kardec, 1865.
O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:
1º A alma ou o Espírito sofre, na vida espiritual...
...as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.
2º — A completa felicidade prende-se à perfeição...
...isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.
3º — Não há uma única imperfeição da alma...
que não importe funestas e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de uma satisfação.
A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a das satisfações à das qualidades.
A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.
De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz.
Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.
4º — Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma...
a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojarse do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas.
Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebeos em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.
5º — Dependendo o sofrimento da imperfeição...
... como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito. O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu
igualmente onde houver almas felizes.
6º — O bem e o mal que fazemos decorrem...
...das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos é, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.
7º — O Espírito sofre pelo mal que fez...
de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.
8º — Sendo infinita a justiça de Deus...
o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha consequências fatais, como não há uma única ação meritória, um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais ações um começo de progresso.
9º — Toda falta cometida, todo mal realizado é...
uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, sêloá na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si.
Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.
10º — O Espírito sofre no mundo corporal e no espiritual,
a conseqüência das suas imperfeições.
As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências.
Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgarse a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram.
11º — A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta...
...podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes
ou agravantes, em que for cometida.
12º — Não há regra absoluta nem uniforme...
...quanto à natureza e duração do castigo: — a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.
13º — A duração do castigo dependerá da melhoria...
...do Espírito culpado. Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem. Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizálos e anulálos pela prática do bem. Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertálo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando não existe mais; por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.
14º — Dependendo da melhoria do Espírito será a duração...
...do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.
15º — Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos...
é não enxergar com dificuldades o termo da provação, acreditando a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo.
16º — Mesmo sendo o primeiro passo para a regeneração, o arrependimento...
não basta por si só; serão precisos a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.
17º — O arrependimento pode dar-se em qualquer tempo, entretanto...
...se for tarde, o culpado sofre por mais tempo. Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.
A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal.
Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má vontade, achar seá numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrarlhes reconhecimento e fazerlhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito.
Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera, fazendose o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornandose humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados.
E desse modo progride o Espírito, aproveitandose do próprio passado.
18º — Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes...
cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificandose das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliandoos no progresso.
19º — Como o Espírito tem sempre o livre arbítrio...
...o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina. Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.
20º — Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos...
...Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitarlhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram.
Contudo, essa interferência do guia fazse quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.
O bem e o mal são praticados em virtude do livrearbítrio, e, conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.
Persistindo no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.
21º — A responsabilidade das faltas é toda pessoal...
...ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo. Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.
22º — Ainda que a diversidade de punições seja infinita...
...algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequências, salvo pormenores, são pouco
mais ou menos idênticas.
A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na conseqüente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.
Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se acham identificados com a vida espiritual, a transferência é rápida, sem abalos, quase nula a turbação de um pacífico despertar.
23º — Um fenômeno frequente entre os Espíritos de inferioridade moral é...
...o de acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e perplexidades da vida.
24º — Para o criminoso, a presença incessante...
...das vítimas e das circunstâncias dos crimes praticados é um suplício cruel.
25º — Há espíritos há mergulhados em densa treva; outros...
...se encontram em absoluto isolamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição, como da sorte que os aguarda.
Os mais culpados padecem torturas muito mais afetados pela visão turva de seus prórios termos.
Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam com intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram.
Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.
26º — Para o orgulhoso relegado às classes inferiores...
é um castigo severo ver acima dele colocados, cheios de glória e bem estar, os que na Terra desprezara.
O hipócrita se vêem desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular
O sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento.
O avarento vê o esbanjamento inevitável do seu tesouro.
O egoísta se vê desamparado de todos e sofre as consequências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão suavizadas, nem amigas mãos se estenderão às suas mãos súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém se compadecerá dele na morte.
27º — O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras...
...de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente.
Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas conseqüências.
28º — A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão...
...a por si mesmo preparada na vida corpórea.
Mais tarde, outra encarnação será permitida para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais dolorosa, de forma que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que satisfazem uma felicidade aparente, em que pesem aos seus vícios e inutilidades, pagarão mais caro em posterior existência.
Nesse sentido foi que Jesus disse: — “Bem aventurados os aflitos, porque serão consolados”. (O Evangelho
segundo o Espiritismo, cap. V.)
29º — Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega...
...O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver equilíbrio à justiça, sofre a consequência dos seus erros.
Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.
30º — Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade...
...humana, as penas, temporárias, trazem constantemente, castigos e remédios auxiliares à cura do mal.
Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadeceremse com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto
mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico assistente.
Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.
31º — Às penas que o Espírito experimenta na vida espiritual juntam-se...
...às da vida corpórea, que são consequentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau
uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas.
É na vida corpórea que o Espírito repara o mal das existências anteriores, pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual.
Assim se explicam as misérias e as vicissitudes do mundo que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser.
Justas são elas, no entanto, como espólio do passado, herança que servirá na nossa caminhada à perfeição.
32º — Deus não daria prova maior de amor às suas criaturas...
..., criando-as infalíveis e, consequentemente, isentas dos vícios da imperfeição?
Pra isso foi preciso que Ele criasse seres perfeitos, sem mais nada a adquirir, tanto em conhecimentos, quanto em moralidade.
Deus poderia fazê-lo assim, e se não fez é que em sua sabedoria quis que o progresso seguisse a lei geral.
Os homens são imperfeitos, e assim estão sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E se o fato existe, devemos aceitá-lo.
Pensar que Deus não é bom nem justo, a revolta contra a Sua Lei seria insensata.
Haveria injustiça, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, usufruindo mais satisfações que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir.
Ao contrário, a justiça divina está presente na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum
cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.
Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida.
O caminho da felicidade é amlo a todos, e também as mesmas condições para atingi-la.
A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada.
Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.
Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa.
O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si
mesmo. O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.
33º — Em que pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos...
...dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumirse nestes três princípios:
1º — O sofrimento é inerente à imperfeição.
2º — Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.
3º — Podendo todo homem libertarse das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.
A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: — tal é a lei da Justiça Divina.
Texto do livro Céu e Inferno, cap. VII, 1° parte, Allan Kardec, 1865.